quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

MADUREIRA X FRIBURGUENSE


UMA BRASTEMP E A CONTA.

Claudete estava excitadíssima. Há tempos queria se livrar daquela coisa marrom e barulhenta que habitava a cozinha de seu kitnet. Ela e Luiz Cláudio iam ganhar uma geladeira nova. Presente de casamento do avô dele, o Paulino.
Já haviam combinado desde a semana passada. Era uma quarta - feira à noite, quando partiram os três para o paraíso de todas as recém casadas. As Casas Bahia. Luiz Cláudio não estava tão feliz, odiava shopping e estava mais do que satisfeito com a geladeira que tinham. Qualquer coisa seria mais interessante para ele do que estar naquele lugar. Mas isso não importava para Claudete.
A loja estava lotada, mas o trio foi rapidamente atendido por uma morena simpática que logo se prontificou a mostrar as ofertas e os últimos lançamentos.
Luiz Cláudio bocejava, Claudete roia as unhas, ansiosa, e Paulino analisava o material. Não da geladeira, mas da vendedora.
Eram várias as opções. De cores, tamanhos, marcas e claro, preço.
Claudete andava pela loja, abrindo e fechando as portas das geladeiras, imaginando qual combinaria mais com a sua cozinha minúscula. Parado em frente a uma televisão de LCD 33 polegadas, estava Luiz Cláudio, ele assistia compenetrado a Madureira e Friburguense. Finalmente algo realmente emocionante.
Paulino estava diante da vendedora, contava piadas e já se falava em valores. Isso era ótimo. “Bom, podemos parcelar em até 28 vezes” disse a moça. Luiz Cláudio arregalou os olhos, engasgou com a própria saliva e foi puxando Claudete pelo braço até a sessão de eletrônicos.
- Eu não quero mais geladeira nenhuma.
- Enlouqueceu, Luiz Cláudio?
- 28 vezes Claudete? Eu não sei nem se o velho vai estar vivo daqui a 28 meses.
- Escuta Luiz Cláudio. Para de falar besteira. Teu avô tem uma saúde de ferro e eu não volto pra casa sem uma geladeira nova. Fim de papo.
Voltaram aos dois, no momento em que Paulino elogiava os olhos da vendedora.
- Não disse que teu avô tava vendendo saúde, sussurrou rindo no ouvido do marido.
Depois de avaliar os valores e condições de pagamentos, finalmente foram ao que interessava. Pelo menos para Claudete.
Gracyane, a vendedora, mostrava animada, o último lançamento da Brastemp. Luiz Cláudio tinha seus braços cruzados e a cabeça recostada sobre a geladeira ao lado. Quase cochilava enquanto a moça falava.
- Temos aqui uma Brastemp duplex, com degelo automático, compartimento de laticínios, gaveta de frutas e capacidade de 350 litros.
Luiz Cláudio deu mais um bocejo.
- ela possui também um botão “turbo”. Gela mais rápido refrigerantes, latinhas de cerveja...
Luiz Cláudio levantou a cabeça e descruzou os braços. Subitamente se interessou pelo o que Gracyane dizia.
- Latinhas de cerveja, é? E gela mesmo mais rápido?
Luiz Cláudio era um cara simples. Não precisava de muito para ser feliz. Não via problema algum na geladeira que tinham. Não o incomodava nem um pouco ela ser marrom. Mesmo que os azulejos da cozinha fossem azuis. Pouco importava o barulho ensurdecedor que ela fazia. Seu sono era pesado.
Mas a boa e velha geladeira marrom, não gelava mais sua cerveja como antigamente.
- Gostei dessa! Ele disse.
Claudete parecia não acreditar. Botãozinho milagroso aquele, ela pensava satisfeita.
Paulino já não fazia mais piadas. Aquele, obviamente, era o modelo mais caro da loja.
Naquele momento, Paulino nunca pareceu tão saudável, e já ganhava do neto, tapinhas nas costas, que agradecia o presente.
28 meses nem era tanto tempo assim. E a fila do caixa, até que estava andando.
Já eram quase dez horas quando deixaram a loja. Se corressem, ainda pegavam o segundo tempo de Madureira e Friburguense.